As Confissões dos Presidentes

Revista Dr Magazine | Edição 35 | Novembro/2015

Reportagem atualizada em 26/08/2016

As revelações de José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, em entrevistas sempre marcadas por análises de dimensão histórica, ganharam desenvoltura na obra do jornalista Geneton Moraes Neto. O livro Dossiê Brasília - Os Segredos dos Presidentes, já rendeu milhares de cópias e o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos de não-ficção.


Foto: João Alves.

“Publicar tudo em livro – sem qualquer corte – foi a melhor maneira de dividir com o público tudo o que ouvi”. Dessa maneira, o jornalista Geneton Moraes Neto inicia esta entrevista exclusiva, para falar de um de seus mais oportunos e instigantes títulos publicados sobre a política no Brasil: Dossiê Brasília – Os Segredos dos Presidentes. O livro lançado em 2005 pela Editora Globo, já ocupou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos na área de não-ficção na Veja, Folha de São Paulo, O Globo e Época.


Em um País de democracia jovem, envolto em sucessivas crises de legitimidade do poder, Dossiê Brasília – Os Segredos dos Presidentes é um convite à reflexão sobre o processo político brasileiro por meio da experiência de quatro personagens que viveram a glória e as dificuldades do cargo mais importante da Nação. A obra surgiu a partir de uma série de entrevistas com ex-presidentes exibidas pelo Fantástico em 2005. As revelações de José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, em entrevistas sempre marcadas por análises de dimensão histórica, ganharam desenvoltura em 272 páginas. O livro traz, na íntegra, o que o programa de televisão mostrou em parte. Traz ainda relatos de entrevistas anteriores com os ex-presidentes militares Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo, além de uma conversa com o ex-presidente Lula, realizada em 1979, enquanto metalúrgico, em sua primeira visita como homem público em Pernambuco. “A instituição da presidência da república é cercada por uma forte carga dramática no Brasil. Basta ver os momentos descritos pelos ex-presidentes”.


Nascido em Recife em 1956, Geneton Moraes Neto atuava como jornalista desde 1972. Começou na profissão sob o regime de Emílio Garrastazu Médici no Diário de Pernambuco. Trabalhou como repórter no Brasil e no exterior. Tem 11 livros de entrevistas e reportagens publicados, sendo dois em parceria com Joel Silveira. Desde o início dos anos 80 na Rede Globo de Televisão, Geneton foi editor-chefe do Fantástico.


Geneton faleceu no último dia 22, mas suas reportagens podem ser acompanhadas em seu blog no G1 – Dossiê Geral: o blog das confissões.


​​FLIPORTO 2012/Congresso Literário/Ruy Castro e Heloísa Seixas conversam com Geneton Moraes Neto. Foto: Beto Figueiroa.

ENTREVISTA

GENETON MORAES NETO

Foto: TV Globo/Divulgação.

Leia agora o que este inquieto jornalista nos contou sobre as revelações dos presidentes José Sarney, Itamar Franco, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.


A obra é considerada um verdadeiro tesouro histórico. Além de relatos exclusivos dos últimos quatro presidentes, você também inclui algumas de suas entrevistas antigas com ex-presidentes militares e com o ex-presidente Lula, na época um operário sonhador na luta por um Brasil mais justo. Por que resolveu pegar todo esse material e transformá-lo numa obra quase que documentária?


Geneton Moraes Neto - Eis um drama de quem trabalha em televisão: o que é visto por milhões de espectadores pode desaparecer no ar em questão de minutos. Mas o que é publicado em livro fica para sempre. Quando terminei de gravar a série de entrevistas com os ex-presidentes brasileiros, vi que tinha um tesouro nas mãos: horas e horas de depoimentos sobre os bastidores do poder. Era impossível usar tudo no programa, por absoluta impossibilidade de tempo. Publicar tudo em livro – sem qualquer corte – foi a melhor maneira de dividir com o público tudo o que ouvi.

​​

O que concluiu desse conjunto de confissões?


Geneton Moraes Neto - Um detalhe me chamou a atenção: a instituição da presidência da república é cercada por uma forte carga dramática no Brasil. Basta ver os momentos descritos pelos ex-presidentes: José Sarney tomou a decisão de renunciar ao cargo. Não levou a decisão adiante. Fernando Collor ficou sozinho no gabinete presidencial, no escuro, no momento em que a Câmara dos Deputados votava a abertura do processo de impeachment. Itamar Franco recebeu uma proposta para fechar o Congresso. Fernando Henrique foi assaltado por um sentimento terrível: o de conviver, na presidência, com fatos que lhe fugiam do controle, como foi o caso da crise das Bolsas de 1999.



Foto: Editora Globo/Divulgação.

"Ouvi uma boa frase: o Brasil é um país tão surpreendente que até o passado é imprevisível. Quem revirar o passado certamente terá motivos para se surpreender. O livro Dossiê Brasília apresenta uma coleção de fatos que confirmam esta suspeita."


Os ex-presidentes abriram o jogo por motivos políticos ou por simples desabafo de suas épocas de governabilidade?


Geneton Moraes Neto - A iniciativa de procurar os ex-presidentes foi nossa. Tivemos a sorte de receber uma resposta positiva de cada um dos quatro. O desafio que apresentamos aos ex-presidentes foi: que segredos eles tiveram de guardar quando estavam no poder, mas que agora poderiam revelar ao Brasil? Nossa investida foi bem-sucedida.


​​

Num dado momento, o presidente Sarney relembra um boeing que um sequestrador queria jogar sobre o Palácio do Planalto, em 1988. O que essa cena lembra o atentado terrorista as torres gêmeas de New York?

Geneton Moraes Neto - De fato, há uma coincidência. O desempregado maranhense que sequestrou um Boeing de passageiros ameaçou o avião sobre o Palácio do Planalto. O (quase) atentado ocorreu em 1988. A gente pode dizer que ele foi, tristemente, um antecessor de Mohamed Atta.


​​

Qual dos ex-presidentes foi mais arredio nas confissões?

Geneton Moraes Neto - Entre idas e vindas, encontros e desencontros, tivemos de esperar quatro meses pela entrevista com o ex-presidente Itamar Franco. Mas a espera valeu. Um ex-presidente que não era dado a fazer confissões terminou concedendo uma entrevista reveladora.




Em algum momento durante as entrevistas você se surpreendeu com o material que tinha nas mãos?

Geneton Moraes Neto - O jornalista não pode, sob hipótese alguma, perder a capacidade de se espantar diante dos fatos. É o que tento fazer no exercício da profissão. O fato de eu não ser repórter político só me ajudou. Minha curiosidade sobre os bastidores da presidência foi redobrada. Os ex-presidentes, afinal, pertencem a uma categoria especial de celebridades: aquelas que jamais deixarão de ser notícia. O que me moveu, ao procurá-los, foi essencialmente a curiosidade de repórter.



​​


Como jornalista experiente, como explica a atitude de um presidente em gravar fitas pessoais? Seria uma autodefesa?

Geneton Moraes Neto - Quem usou o recurso de gravar fitas cassete ao fim de cada dia de trabalho no Palácio do Planalto foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Eu diria que, ao tomar esta providência, ele prestou um belo serviço à memória brasileira. A História do Brasil agradeceria se todos os presidentes cometessem gestos parecidos.

​​

Você abre o livro escrevendo: “O Brasil não é para amadores. Nunca foi. Aqui, o que parece improvável acontece. O que é dado como certo não se confirma. O razoável é tido como loucura”. O que quis expressar com essas palavras?

Geneton Moraes Neto - Eu apenas quis chamar a atenção para as surpresas que a história política brasileira reserva para os estudiosos. Nossa História não é linear. É feita de crises, avanços, recuos, solavancos. Ouvi uma boa frase: o Brasil é um país tão surpreendente que até o passado é imprevisível. Quem revirar o passado certamente terá motivos para se surpreender. O livro Dossiê Brasília apresenta uma coleção de fatos que confirmam esta suspeita.

​​

Você disse, numa de suas entrevistas, que uma das funções do jornalismo é produzir informação, em curto prazo, e memória em longo prazo. Podemos então dizer que esse livro, em especial, enquadra-se nessa segunda definição?

Geneton Moraes Neto - Dossiê Brasília, o livro, cumpre o papel de preservar para o futuro um material que foi apresentado ao público através de um meio impactante, mas fugaz, como é o caso da televisão.



​​

Sendo um jornalista experiente e respeitado não só pela mídia informativa como também por autoridades, acredita que pode vir a conseguir do ex-presidente Lula declarações de igual peso político?

Geneton Moraes Neto - Obrigado pela referência pessoal. O que posso dizer é que tentarei arrancar de Lula informações que ele hoje guarda em segredo. É o papel que me cabe como repórter.


​​

De Collor até FHC, o que dessas confissões, caso fossem executadas, poderiam ter afetado o Brasil?

Geneton Moraes Neto - É possível imaginar o impacto que teriam, por exemplo, a possível renúncia do ex-presidente Sarney, o suicídio de Fernando Collor ou o fechamento do Congresso no governo Itamar Franco. São histórias que poderiam ter acontecido, mas, felizmente, não aconteceram. O Dossiê Brasília traz os detalhes.


​​

O livro tem um anseio por acordar essa ‘massa brasileira’ para a história política nacional?

Geneton Moraes Neto - Eu não teria a pretensão de achar que o Dossiê Brasília irá ‘acordar a massa’. Mas posso dizer, sem medo de errar, que o livro é um belo documento sobre os bastidores do poder. É uma maneira de conhecer nossa história recente. A resposta do público não poderia ser melhor: o livro – sobre um tema que poderia ser considerado árido, a política – já ocupou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos na área de não ficção na Veja, Folha de S.Paulo, O Globo e Época.


​​

Você teve a oportunidade de assistir a corredores da morte em prisões norte-americanas, de entrevistar astronautas que pisaram na Lua, o co-piloto que lançou bomba atômica sobre Hiroshima, e falar com o assassino do líder negro Martin Luther King. O jornalista é um ser privilegiado?

Geneton Moraes Neto - Todo jornalista pretende ser os olhos e ouvidos do público. Nosso papel é satisfazer a curiosidade da maioria. Não posso negar que é um privilégio ter tido a chance de entrevistar longamente personagens fascinantes, como estes que você citou. Mas o jornalista deve sempre se policiar para não cair na ilusão de que ele faz parte deste mundo de celebridades. Não faz. O repórter deve sempre incomodar os outros, no bom sentido. Sempre me lembro da lição de um editor inglês, um conselho ferino que ele dá aos repórteres: “Quando estiver ouvindo presidentes e ministros, líderes sindicais e empresários, iogues e delegados, o repórter deve sempre perguntar a si mesmo: por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?”.




Foto: Arquivo Pessoal.

Dossiê Moscou

"Tenho uma predileção especial pelo Dossiê Moscou. Descrevo no livro o que aconteceu na Rússia no dia em que o país viveu pela primeira vez uma eleição direta para presidente da República. Posso dizer: “meninos, eu vi”. Porque eu estava lá, em Moscou, como enviado especial do jornal O Globo. Gosto do livro. É uma leitura fácil, uma reportagem de campo – e não uma tese política. Vi uma cena histórica: pela primeira vez, um ex-líder soviético, Mikail Gorbachev, participava de uma eleição. Não é todo dia que um repórter tem uma chance de ver a História acontecer ao vivo, diante de seus olhos."



​​

Paulo Nogueira, no site ‘Observatório da Imprensa’, escreveu: “Cada vez que um jornalista sela uma amizade com alguém que faça parte do universo que ele cobre, a vítima é o leitor”. Você concorda que há esse risco?

Geneton Moraes Neto - Concordo. O jornalista – em última instância – deve ser um animal solitário. Amizade entre repórter e entrevistado é prejudicial, na maioria das vezes. Já vi entrevistas que parecem conversa de comadre: um levantando a bola pra outro. O repórter precisa destilar um pouco de veneno. A dose não precisa ser letal. Repórter amigo da fonte jamais tratará de temas incômodos. É o fim para um profissional. Quem age assim vira assessor de imprensa do entrevistado. Errado. Errado. Errado.



​​

Qual será seu próximo ‘Dossiê’?

Geneton Moraes Neto - Ainda não sei. Mas devo organizar um volume com textos de Paulo Francis. Tive a sorte de conviver profissionalmente com ele. Ninguém precisa concordar com o que ele dizia, mas não se pode negar que Paulo Francis deixou uma contribuição importantíssima para nossa imprensa. Francis reclamava de que o Brasil não tinha desenvolvido uma tradição: a de uma prosa clara e instruída. O que ele fez, no Jornalismo, foi contribuir para que o Brasil tivesse, na imprensa, uma prosa clara e instruída, algo que faz falta à nossa literatura. Influenciou uma geração inteira. Não é pouco. Francis era o antídoto perfeito para algo que ele próprio diagnosticou: “Nossa imprensa: previsível, empolada, chata – meu Deus, como é chata.” Francis, repito, era o contrário: não era previsível, não era empolado, não era chato. Inspirado em Francis, digo que devemos fazer um esforço imenso para não sermos jornalistas previsíveis, empolados e chatos. Dificilmente conseguiremos. Mas a tentativa já valerá o esforço. É o que faço todo dia.


Foto: Beto Figueiroa.


Dossiê Drummond - "Posso dizer que cumpri minha missão".

"A entrevista com Drummond me ensinou que vale a pena insistir. Eu sabia que dificilmente seria recebido por Carlos Drummond. A filha do poeta estava gravemente doente. Mas descobri que ele adorava falar pelo telefone. O que fiz? Preparei um enorme questionário. Tentei o contato. Quando ele disse “alô” do outro lado, eu já estava gravando. Drummond aceitou me dar a entrevista ali, na hora, por telefone, tal como eu esperava. Gravei tudo. A transcrição da entrevista rendeu sessenta páginas. Dezessete dias depois, ele morreu. Reuni todo o material no livro. Bem ou mal, o Dossiê Drummond se transformou num documento sobre nosso maior poeta. Cumpri minha obrigação de repórter. As palavras de Drummond estão preservadas, para sempre, nas páginas do Dossiê. Posso dizer que cumpri minha missão."


© 2013 REVISTA DR MAGAZINE. Todos os direitos reservados.

ISSN: 2179-6882