Alzheimer: Novas esperanças contra o mal


Foto: Nerthuz/Dreamstime

Revista Dr Magazine | Edição 30 | Outubro/2014

Reportagem atualizada em 06/08/2016

Cansaço, falta de memória, incapacidade de manter um raciocínio lógico. Esses sintomas podem parecer comuns entre idosos, mas são também indicadores da Doença de Alzheimer (DA), que ainda não tem diagnóstico preciso, nem cura. Esse mal neurodegenerativo, que causa a deterioração da memória e da capacidade cognitiva, foi descrito pelo neurologista alemão Alois Alzheimer, em 1907 (veja coluna de Drauzio Varella em http://www.mflip.com.br/pub/drmagazine/?numero=30&edicao=2941).


Desde então, a doença mudou a história de muitas famílias: espalhou medos, modificou hábitos, e agora, em pleno século 21, surge nas estatísticas oficiais norte-americanas em sexto lugar na lista de principais causas de morte, atrás das doenças cardiovasculares e o câncer (primeiro e segundo lugares). Um estudo apresentado recentemente por Bryan James, do Centro Médico da Universidade Rush, em Chicago, mostrou que um terço das mortes de pessoas com mais de 75 anos pode ser atribuído ao mal de Alzheimer.Mas essa doença está prestes a deixar de ser um mistério para a ciência. Vários grupos de pesquisadores descobriram que o segredo está em manter a integridade dos cerca de 100 bilhões de neurônios que compõem o cérebro de um adulto, os primeiros a ser aniquilados pelo Alzheimer, e que estão envolvidos na produção de acetilcolina, uma das substâncias responsáveis pela memorização. Ou seja, prevenção ou cura. “Embora esses tratamentos ainda estejam em fase puramente experimental, começam a surgir as primeiras evidências de que a doença pode ser controlada. Chegar aos 90 anos com lucidez parece que não será tão difícil quanto se imaginava há dez anos”, diz Drauzio Varella (veja em http://www.mflip.com.br/pub/drmagazine/?num=30&edicao=2941).

Uma das novidades na luta contra o Alzheimer está na Universidade de Oxford. O professor de neurociência, Simon Lovestone, liderou um estudo no King's College de Londres, que analisou 220 doentes com ligeiros problemas cognitivos. O estudo publicado em junho deste ano na Alzheimer's & Dementia, identificou 10 proteínas que estavam presentes no sangue de 87% desse grupo de pacientes, que foram, no espaço de um ano, diagnosticados com Alzheimer. O resultado do estudo aumenta a esperança de que um teste possa ajudar na procura de tratamento para a doença, além de contribuir para a descoberta de cura. “Muitos dos nossos testes com fármacos falharam porque quando eram administrados aos pacientes o seu cérebro já estava gravemente afetado”, disse a agência Lusa, o neurocientista Lovestone. “Uma simples análise do sangue poderia ajudar-nos a identificar, em uma fase precoce, os pacientes, que serão submetidos depois a novos testes, e, possivelmente, a desenvolver novos tratamentos para prevenir o avanço da doença. O próximo passo será validar as descobertas em futuras séries de amostras”, acrescentou.

A expectativa é que, em 2060, o país tenha

58,4 milhões de pessoas idosas (26,7% do total).

Outra possibilidade de driblar a doença começou a se desenhar em fevereiro deste ano. A empresa Araclon Biotech entrou em fase clínica de testes com 24 humanos na Espanha, no intuito de avaliar a tolerância e segurança de uma nova vacina contra o Alzheimer. Segundo informou o diretor cientista, Manuel Sarasa, a primeira fase de testes tem previsão de ser concluída em 2015. Na mesma linha de combate a doença, cientistas espanhóis do Centro de Investigação Biomédica Euroespes tiveram testes bem sucedidos em ratos de laboratório com a vacina experimental EB-101. De acordo com o médico responsável pelo andar da pesquisa, Ramón Cacabelos, a vacina poderá atuar em duas frentes: na prevenção – evitando o desenvolvimento da enfermidade, e na terapia – reduzindo drasticamente as características patogénicas de Alzheimer. A EB-101 deve estar disponível, segundo Cacabelos, daqui há 10 anos.


O Alzheimer atinge 35,6 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 1,2 milhão no Brasil com 65 anos ou mais. Um número que poderá triplicar até 2050, de acordo com estimativas da Alzheimer's Disease International. O hormônio ouabaína é outra luz que surge para evitar esse triste quadro probabilístico. Tradicionalmente utilizado no tratamento de doenças cardiovasculares, ele possui efeito de proteção aos neurônios, segundo aponta um estudo da Universidade de São Paulo (USP). A descoberta representa uma possibilidade de avanço no tratamento de doenças neurodegenerativas, como os males de Parkinson e Alzheimer, tendo em vista que atualmente não existe medicamento capaz de impedir a morte dos neurônios.

A ouabaína é extraída da espécie de planta Strophantus gratus, a exemplo da dedaleira (flor medicinal e ornamental), e também é encontrada no organismo humano. O professor Cristoforo Scavone, responsável pela pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, explica que a proteção dos neurônios pode ser conseguida de maneira natural, porque o hormônio é liberado no corpo durante a prática de exercícios físicos. “Se ela [a ouabaína] é liberada naturalmente no exercício e se é protetora, mais um motivo para as pessoas terem práticas saudáveis. É muito mais promissor que certas drogas”, avalia.

A pesquisa desenvolvida pelo ICB pode abrir uma nova área de estudo, com a perspectiva de produção de novos remédios. Embora esteja comprovada a capacidade de proteger os neurônios com o uso da ouabaína, ainda serão feitos estudos para saber a ação do hormônio contra os males de Parkinson e Alzheimer. “Estamos começando a trabalhar nos modelos das doenças neurodegenerativas para ver como se processa essa proteção. Por enquanto, analisamos a resposta em relação à inflamação e vimos que há uma proteção ao estímulo inflamatório”.


Mesmo diante de tantas pesquisas amplas, ainda é difícil de entender sobre o avanço da doença, que provoca a degeneração do sistema nervoso. Mais de 96% dos experimentos realizados entre 2002 e 2012 foram fracassados. "Os principais dados sobre Alzheimer são baseados em estudos de associação, realizados com amostra originada de uma única população", explica a pesquisadora da Universidade de Brasília, Andréa Lessa Benedet, autora de um estudo que considera a mistura de raças no entendimento do Alzheimer, e chama a atenção para a influência da proporção genética de ancestralidade nos pacientes com a doença. Ela avaliou 120 pacientes com Alzheimer e 412 que não manifestaram a doença e concluiu que os que possuem estrutura genética herdada das populações ameríndias, povo nativo das Américas, como os indígenas, têm menor predisposição à doença. Já os pacientes que possuem maior herança genética de europeus e africanos seriam mais suscetíveis ao Alzheimer.


De modo geral, a demência do tipo Alzheimer costuma ocorrer em pessoas com mais de 70 anos de idade, embora haja casos de doença mais precoce, aos 50 anos, explica o neurologista Norberto Frota, vice-coordenador do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “Apesar de associar o Alzheimer aos idosos, pessoas com menos de 50 anos também podem ser vítimas”. Foto: Clicktrick/Dreamstime.




O crescente aumento da expectativa de vida do brasileiro traz à tona a importância de se discutir as doenças do envelhecimento, entre elas, o Alzheimer. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, divulgada em setembro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 26,1 milhões de idosos. Número que representa 13% da população total. A expectativa é que, em 2060, o país tenha 58,4 milhões de pessoas idosas (26,7% do total).






Além disso, existe relação entre Alzheimer e depressão, comenta a neurologista Soniza Leon. “Como o humor e todo o conjunto de funções dependem das atividades corticais, a alteração do humor pode fazer parte da doença, tanto a depressão quanto a perda do juízo crítico, a mania, uma agitação psicomotora.” Ela destaca que alguns pacientes não ficam parados, andam a noite toda, mantêm-se acordados, enquanto outros permanecem totalmente parados, deprimidos. “Cada um tem uma manifestação de humor, maior ou menos grave, para depressão ou mania. Isso vai variar de paciente para paciente”.

A médica admite que é muito difícil para a família conviver com um paciente com Alzheimer e destaca a importância dos cuidadores de idosos. O trabalho desses profissionais vem ganhando importância, pois, como as pessoas vivem mais, ficam mais sujeitas a desenvolver demência e a depender de terceiros. Os cuidadores hoje têm treinamento especial para lidar com esses casos. Em geral, são técnicos de enfermagem ou de fisioterapia, explica Soniza.


A escritora Heloisa Seixas sofreu durante dez anos com a doença de Alzheimer de sua mãe, Maria Angélica, e relatou a experiência no livro O Lugar no Escuro, que foi transformado em peça teatral. “É uma história de terror você lidar com a presença da pessoa e, ao mesmo tempo, com sua ausência emocional, psicológica e espiritual”, resume Heloisa. Para ela, como em qualquer doença mental, é muito difícil lidar com a dissolução da personalidade. "Afeta a família toda”, diz.

Mais que falar da doença em si, o livro trata das relações familiares. O depoimento tem emocionado as pessoas. “O que eu noto, principalmente, é que as pessoas se identificam quando eu falo da minha raiva. Admito que senti raiva, revolta, que tive rancor, que aquilo fez aflorar mágoas antigas. As pessoas vêm para mim com lágrimas nos olhos para dizer que também sentiam isso, mas não tinham coragem de dizer”, conta a escritora que diz que é preciso aprender a conviver com a doença. “É um aprendizado dificílimo, mas há saídas, há maneiras de lidar com isso de forma suave”, afirma. Segundo ela, uma dessas formas é tentar entender o que está ocorrendo, porque, em geral, as pessoas costumam negar a doença, o que torna tudo mais difícil. Heloísa acredita que o estigma que envolve a doença de Alzheimer é o mesmo de qualquer doença mental. “Os parentes têm dificuldade de lidar com isso, têm vergonha. Por isso, é importante aprender a conviver com certos constrangimentos que o doente de Alzheimer pode causar no dia a dia”, orienta. Ela ressalta, porém, que, diferentemente do que ocorria 10 anos atrás, quando sua mãe começou a apresentar sinais da doença, hoje há uma consciência maior do problema.


Para o neurologista Paulo Berzolucci, o que se pode fazer no momento é diminuir as chances das pessoas terem a doença, “e isso supõe estilo de vida saudável, ou seja, tratar o cérebro da melhor forma possível. Se for o caso, tratar muito bem de hipertensão, diabetes, alteração de colesterol e ter atividade física regular e atividade intelectual contínua", orienta. Foto: Mcininch/Dreamstime.



Mas isso não significa que elas não terão a doença, como é o caso do marido de Maria José Lima, Paulo Vicente Lima. Formado em economia, deu aulas em faculdades e sempre foi muito ativo. Há dez anos, começou a ter lapsos de memória e certa alienação. Lima já toma remédios para se tratar de Alzheimer há oito anos. Maria José diz que é preciso ter cuidado especial com ele. "É um processo gradativo, em que a gente tem de ter amor, paciência, um controle muito grande porque, devagar, você vai ter que assumir todas as coisas familiares e cuidar dele", ensina. O gasto mensal da família Lima com medicamentos já chegou a R$ 500 e, hoje, na fase avançada da doença, as despesas são ainda maiores.


O médico neurologista André Palmini, membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), ressalta que, embora não haja dados precisos sobre a doença, ela está crescendo em números absolutos no Brasil, “tornando-se um problema real de saúde pública”. De acordo com o neurologista, em todo o mundo, a prevalência de pacientes com Alzheimer se aproxima da de pacientes com epilepsia. Palmini ressalta que, no passado, a distribuição era muito desproporcional, porque os países mais desenvolvidos apresentavam maior número de casos, uma vez que as pessoas viviam mais tempo. Hoje, essa desproporção vem diminuindo. “O Brasil passa a pertencer ao grupo de países desenvolvidos e isso se torna um problema importante”.


A medicina tem tentado identificar os fatores que aumentam ou diminuem a probabilidade de pessoas idosas terem Alzheimer. Fatores de proteção estão ligados aos hábitos intelectuais e sociais de vida, assim como a alimentação e a atividade física. Veja alguns exemplos citados por Palmini:

... um idoso que se mostra interessado em ler aumenta o que em medicina se chama de reserva cognitiva. Com isso, ele retarda o aparecimento da doença.

... é recomendável que a pessoa cultive uma rede de amigos e tenha contato com eles com frequência. Segundo o especialista, estudos comprovam que quanto mais limitado o círculo social do idoso, maior a probabilidade de ele ter Alzheimer. Quanto mais ampla essa rede social, maior a proteção.

... a prioridade deve ser para uma alimentação saudável, que mantenha os níveis de colesterol e glicemia controlados. A pressão arterial também deve ser mantida sob o controle. O idoso que não fuma e pratica exercícios físicos diminui o risco de ter a doença.



Estudos recentes relacionam uma dieta saudável à prevenção do Mal de Alzheimer. Comer nozes, hortaliças de folhas verdes e outros alimentos ricos em antioxidantes como a vitamina E, pode reduzir o risco de doenças como o mal de Alzheimer. As vitaminas antioxidantes bloqueiam as moléculas de oxigênio chamadas radicais livres, que podem danificar células que parecem contribuir com doenças cardíacas ou cancerígenas.

Foto: Shutterstock.

A doença

Foto: FabioBerti/Dreamstime.


Descrita em 1906 pelo médico Psiquiatra e Neurofisiologista alemão, Alois Alzheimer, quando publicou em um Congresso o estudo de caso de uma paciente com 51 anos, denominada Auguste Deter. Esta paciente foi internada no Hospital Psiquiátrico de Frankfurt, onde Alois trabalhava. O marido de Auguste queixou-se ao médico que ela tinha comportamentos estranhos, andava descuidada com a casa, vivia irritada e que lhe fazia constantes acusações a respeito de sua fidelidade como esposo, sem ter qualquer motivo para tanto.

Após quatro anos, Auguste faleceu e Alóis pode estudar seu cérebro tendo encontrado atrofia generalizada de células em seu córtex cerebral, camada externa do cérebro que é relacionada às habilidades intelectuais. Observou que eram as mesmas alterações encontradas em cérebros de idosos, só que em maior quantidade e mais acentuadas no hipocampo (uma estrutura no lobo temporal importante na formação de memórias).


Descreveu que as células que se mostravam alteradas formavam emaranhados neurofibrilares (alterações de proteína Tau) e placas senis (acúmulo de proteína beta amiloide), que matam neurônios (principais células nervosas) e reduzem as conexões (sinapses) entre eles. Logo em seguida, Emil Kraepelin, chefe de Alois em outra clínica que trabalhavam, adiantou-se em batizar a doença de “Doença de Alzheimer”.


Fonte: Instituto Alzheimer Brasil


© 2013 REVISTA DR MAGAZINE. Todos os direitos reservados.

ISSN: 2179-6882